Acadêmica e Cultural

O ANO PASSADO EM MARIENBAD

22/02/2010 12:16

 

 

 

É um filme de Alain Resnais de 1961, com roteiro de Allan Robbe-Grillet, trata da ruptura da memória provocada pela morte. Num luxuoso e enorme palácio, transformado em hotel, entre corredores, salões decorados e estátuas, um estranho tenta convencer uma mulher casada a fugirem juntos. Ele diz conhecê-la. Diz que foram amantes. Entretanto, parece difícil fazê-la lembrar de que tiveram um relacionamento (ou que não tiveram) no ano passado, em Marienbad.

Seria muito simples se a narração obedecesse à seqüência dos fatos, uma ordem cronológica e houvesse nomes de personagens, mas este filme absolutamente maravilhoso em todos os detalhes revolucionou a linguagem cinematográfica e criou as bases para uma nova Sétima Arte, gerando soluções e recursos mais tarde aproveitados por todos os grandes cineastas como Stanley Kumbrick, Roman Polanski e o mais recente Joe Whight (Orgulho e Preconceito).

A ruptura da memória é provocada pelo assassinato do marido traído que atinge a mulher que se apaixona por outro. Ela é eliminada exatamente quando decide fugir com o amante, depois de voltar atrás de uma decisão: tinha proposto ficar um ano longe dele, uma espécie de teste, para ver se o caso era para valer, se o amante estava realmente apaixonado dela. Mas foi convencida a fazer as malas e deixar o marido, que praticava tiro e não permitiu a desonra.

Marienbad é narrado pelo amante que tenta lembrar a mulher do acordo que fez um ano antes, o de ficar um ano separados para que as coisas se resolvessem. Ela, fantasma, que vaga pelo cenário da sua morte, não lembra de nada e pede que o deixe em paz, mas ele a persegue e a atormenta com as lembranças, exigindo que reencontre aquele momento em que poderiam fugir juntos, talvez para que fosse possível a fuga inspirada pelo amor.

O hotel/castelo visto à noite no plano final, sem vegetação, só granito e pedra, é a representação de uma tumba. Lá está enterrada a mulher que ousou amar e fugir de um casamento estéril. E jaz uma elite que treina o tiro enquanto convive de maneira impassível, indiferente e criminosa, isolada do resto do mundo. A imagem em que todos aparecem imobilizados no jardim, totalmente fundada no pintor italiano De Chirico, expressa essa classe social morta.

A memória fragmentada, precária, escassa, rodeando um sentimento, uma promessa, as dúvidas, levam a vanguarda do pensamento e da criação para os mais altos níveis da expressão artística. Houve o desenlace, o crime, e a mulher vaga, morta, pelos corredores e quartos.

O deslumbre visual, a complexa trama, a qualidade poética do texto, as situações de conflito (como a do jogo em que o marido traído sempre ganha), a presença de personagens que não possuem fala, mas ocupam a tela com a força das histórias inesquecíveis, fazem de Marienbad um filme de mestre que deve ser visto e revisto sempre.

 

*Bruna Chagas -  Cusou Literatura e Cinema I e II na UFAM. Acadêmica do curso de Letras.

 

 

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